O homem que inverteu a sala de aula antes da tecnologia

homem que inverteu a sala de aula

Em 1991, insatisfeito com o aprendizado dos seus alunos, o professor de física de Harvard Eric Mazur resolveu mudar a forma como ensinava, abolindo a transmissão de conteúdos na sala de aula. Seus estudantes deixaram de receber lições expositivas e passaram a ler as matérias em casa, enquanto nas aulas respondiam perguntas por computador sobre as lições e discutiam seus conhecimentos com os colegas. O resultado: começaram a aprender muito mais.

Batizada de peer instruction (aprendizado entre pares), a experiência se tornou um método que vem sendo adotado em universidades do mundo todo, em aulas de todas as disciplinas. “O que a formação por pares faz é colocar a parte fácil da educação – a transmissão da informação – para fora da aula, e a parte difícil – dar sentido à informação – para dentro”, explica o inventor do método, que além de ter um livro sobre a abordagem (Instruction: A User’s Manual, sem tradução em português), trabalha desde a década de 90 para disseminar suas ideias.

No último dia 19, Mazur participou, na cidade de Lorena em São Paulo, do lançamento de um consórcio entre 14 instituições de ensino brasileiras e a Laspau (Academic and Programs for the Americas), organização filiada à Universidade de Harvard, dos EUA. Essas universidades vão adotar o método gradualmente em seus cursos, com a ajuda de Mazur na formação dos primeiros professores que vão usar a metodologia. A intenção do consórcio é capacitar 300 professores em três anos.

Confira os principais trechos da entrevista do físico para o site Porvir:

Qual será o principal benefício que as universidades brasileiras que estão começando a usar o método de formação por pares terão com essa experiência?

Os estudantes que serão ensinados por esse método vão aprender significativamente mais do que os ensinados pelo método tradicional de lições expositivas. E eu digo isso não apenas porque já vi o progresso dos meus próprios alunos, mas porque nos últimos 23 anos, no mundo todo, em aulas de diferentes disciplinas, ficou comprovado que o ensino ativo (active learning), que coloca o foco no estudante, beneficia os próprios estudantes.

E quais podem ser as dificuldades que essas universidades e seus professores enfrentarão para implantar o novo método?

Mudar é difícil, especialmente na universidade, que mudou muito pouco nos últimos 400 anos. Se você observar a maneira como ela ensina atualmente, verá que não é muito diferente do jeito que se ensinava há centenas de anos. Na sala de aula, existe uma pessoa falando em frente aos alunos, que anotam tudo o que ele diz. Além disso, os professores ainda estão satisfeitos com a maneira como atuam. Então, é bem difícil mudar, é preciso estar convencido de que a mudança é necessária, mas os professores estão satisfeitos em ser o centro das atenções na sala de aula, principalmente porque a maioria deles não se dá conta de quão pouco seus alunos aprendem.

O senhor afirmou que tem provas de que seus alunos aprendem mais pelo método formação por pares. O senhor mediu o aprendizado deles?

Sim, claro. Eu sou um físico, para mim avaliar e medir é extremamente importante. Desde que comecei a trabalhar dessa forma, em 1991, tenho feito isso. No início do semestre, eu dou aos estudantes uma espécie de teste, que eu nem chamo de teste, mas é uma série de 30 perguntas para avaliar o entendimento deles sobre o conteúdo que estou ensinando. Depois, eu ensino e avalio novamente no fim do semestre. Eu meço no primeiro dia de aula e no último. Já fazia isso quando ensinava pelo modelo tradicional e continuei fazendo na nova abordagem. Esse mesmo tipo de avaliação também foi feita por muitas outras pessoas, de diferentes instituições, diferentes países, e o resultado é que os alunos que são submetidos à formação por pares sempre aprendem muito mais.

Esse teste, que o senhor não chama de teste, é diferente dos exames usados por professores do método tradicional?

É bem diferente. Eu uso não apenas um modelo, mas vários tipos de avaliações que foram desenvolvidas por pesquisadores educacionais e são focados em medir o aprendizado.

Qualquer professor pode passar a ensinar pelo método de formação por pares?

Quando comecei a desenvolver o método, achei que poderia ser usado apenas para ensinar ciências, porque se adaptaria para o tipo de perguntas que eu faço nas classes, que têm sempre uma resposta certa e errada. Mas há muitas disciplinas, como história, ciências sociais, literatura, que nem sempre têm respostas objetivas e envolvem interpretação e opinião. Após publicar meu livro, em 1996, descobri que vários professores de disciplinas das áreas de humanas começaram a usar o meu método, tirando o foco do professor nas aulas e colocando no aluno. Nesses últimos 23 anos, desde que comecei a desenvolver essa abordagem, cheguei à conclusão de que ela pode ser usada para ensinar qualquer disciplina que envolve pensamento crítico. Entretanto, muitos professores gostam de ficar em frente aos alunos da classe apenas entregando a informação, em vez de mudar o foco para os estudantes. Então, intelectualmente, minha resposta é “sim, pode ser adotado por qualquer professor”, mas mestres, por suas personalidades, podem não gostar de perder o controle que têm numa sala de aula tradicional.

É possível que alguns professores nunca tenham pensado sobre mudar o foco de suas aulas, porque nem imaginavam que isso fosse necessário ou possível. Nesses casos, como você os ensina a fazer diferente?

Essa é uma das razões pelas quais eu estou indo para o Brasil. Novas ideias se espalham lentamente e as pessoas precisam, em primeiro lugar, estar convencidas de que elas são boas. Depois, é preciso mostrar a elas como introduzir as novas ideias. Esse é um dos meus trabalhos, é o que tenho feito nos últimos 20 anos. Eu publiquei um livro, que foi traduzido em muitas línguas. Alguns professores brasileiros também já visitaram minhas classes e trabalharam no meu grupo de estudos, e eles estão ajudando a disseminar essas ideias entre os professores brasileiros.

O seu método já tem 23 anos. Se pensarmos em como o mundo está se transformando rapidamente, como as pessoas mudaram a maneira como se comunicam, é bastante tempo. Os alunos mudaram durante esse período?

A mente humana é apta a aprender há milhares de anos. O jeito que aprendemos agora não é tão diferente da maneira que aprendíamos há 10, 20, 100 ou até 1.000 anos atrás.  Nós podemos aprender fazendo, embora essa não seja a maneira que a maioria de nós aprendeu até agora, a não ser no jardim da infância. Se você for a uma escola infantil, não verá crianças ouvindo uma aula expositiva, elas aprendem fazendo. Mas depois disso, não. As circunstâncias mudaram, a tecnologia também, mas a maneira como aprendemos, não. Os estudantes agora podem ter hábitos diferentes, mas aprendem do mesmo jeito.  Eu não concordo com pessoas que dizem que os estudantes mudaram, que eles não prestam atenção, eu acho que essas pessoas estão tirando o foco do que é importante. O funcionamento do cérebro para aprender não muda tão rápido. Minha resposta é: os alunos não são muito diferentes.

Isso significa que o método, 23 anos após ser criado, ainda pode ser considerado inovador ou é necessário fazer uma nova transformação?

Inovação significa mudar o jeito que as coisas acontecem de uma maneira dramática. Enquanto existir o modelo tradicional de ensino baseado em lições, o que eu acredito que ainda acontece em 99% das classes do mundo, a formação por pares – ou qualquer outro método de ensino ativo – ainda pode ser chamada de inovadora. Acredito que as mudanças não podem acontecer muito rapidamente. Se você muda o seu modo de ensinar muito rápido, as pessoas vão se assustar e se recusar a mudar. É importante que as pessoas tenham seu tempo para se acostumar com as transformações e se apropriar delas. Eu não quero chegar ao Brasil e dizer aos professores como eles têm que ensinar. Em vez disso, eu vou contar a eles o que aconteceu nas minhas classes, como eu ensinava, como passei a fazer e como meus alunos começaram a aprender mais. E vou deixar eles chegarem às suas próprias conclusões. Se gostarem da minha mensagem, podem decidir mudar também.

O senhor já esteve no Brasil e fará uma nova visita essa semana. Quais são as suas impressões sobre os professores no país? Eles estão abertos a mudanças?

Eu já estive na USP e na Universidade Federal de São Carlos, também já dei workshops para professores brasileiros em Harvard. Sempre fiquei bem impressionado pelo interesse e desejo deles de aprender novos métodos de ensino e experimentar.

Em suas aulas, o senhor usa um sistema pelo qual os alunos respondem a perguntas, e normalmente organiza as salas de aula de forma diferente. Para implantar a educação por pares é necessário o suporte tecnológico e um ambiente favorável ou algum professor que se interesse por mudar o jeito de ensinar, mas não seja de uma universidade que esteja fazendo esse movimento, consegue fazer isso?

A formação por pares não é uma tecnologia, é a mudança de foco que interessa. Muitas pessoas olham a formação por pares agora e se apaixonam pela tecnologia. Elas começam a ensinar desse jeito porque querem usar o sistema, o ambiente diferenciado da sala de aula, mas nas minhas palestras em São Paulo vou enfatizar e demonstrar como você pode usar esse método sem tecnologia. É importante entender que não é um novo método tecnológico, mas pedagógico.

O senhor pode adiantar um pouco do que vai falar na palestra no Insper em São Paulo?

Tenho uma mensagem muito importante a passar. Eu vejo educação como um processo de dois passos. O primeiro é transmitir informação, o segundo é proporcionar harmonia ao aluno, é fazer com que ele chegue àquele momento em que diz: “Sim, eu entendi!” No método tradicional, o professor coloca toda a atenção no primeiro passo, na transmissão da informação aos estudantes, fazendo uma exposição em frente à classe. Na minha abordagem de ensinar, é o estudante que se responsabiliza pela informação. O que a formação por pares faz é colocar a parte fácil da educação – a transmissão da informação – para fora da aula e a parte difícil – dar sentido à informação ­– para dentro. O que eu quero demonstrar para os professores com quem conversarei nos próximos dias é que, ao focar na transmissão de dados, muitos alunos não terão a oportunidade de assimilar e analisar a beleza dos conteúdos que estamos tentando ensinar. Eles só vão memorizar, mas isso não é aprender. Aprender é muito mais profundo. Vou mostrar que não é muito difícil mudar essas duas partes da educação, tirando a transmissão para fora da sala e colocando o entendimento para dentro dela. Essa será minha principal mensagem.

Adaptado via Porvir

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Instituto inverte sala de aula para professores

O Instituto Singularidades, especializado em formação e capacitação de professores, assumiu o desafio de ensinar de modo inovador e fazer com que o modelo seja passado adiante. Este ano, a organização vai propor aos seus alunos um novo método de aprendizagem, que inspirado em modelos e experiências internacionais, vai tentar inverter a sala de aula: os estudantes aprenderão o conteúdo em suas casas, e o espaço da escola será usado para dúvidas e experimentação.

“Para melhorar as condições de aprendizagem dos nossos alunos, fomos pesquisar o que existe no mercado internacional, as inovações no modelo de ensino acadêmico. Nas escolas que visitei nos Estados Unidos e que temos como referência, como Harvard, MIT, Babson College e Olin College, o flipped classroom [ou sala de aula invertida] elevou a taxa de aprendizado dos alunos em 30%. O que mostrou que eles aprendem e se desenvolvem mais por meio dessa metodologia”, afirma Claudio Oliveira, diretor-geral do Instituto Singularidades.

O conceito de sala de aula invertida propõe que os alunos estudem os conteúdos antes das aulas, por meio de vídeoaulas ou outros recursos interativos como games. Dessa forma, a sala é usada para a realização de exercícios, projetos e atividades em grupos, otimizando o tempo do professor para tirar dúvidas, aprofundar temas e estimular discussões. E é essa experiência que os próprios futuros educadores vão viver na pele antes de aplicar o modelo.

“Queremos uma sala de aula ativa e interativa. Invertendo a lógica tradicional de organização educacional o aluno ganha mais autonomia de aprendizado e o papel do professor deixa de ser o de especialista e passa a ser o de tutor, de facilitador, no sentido de ajudar o aluno a desenvolver seus projetos em sala”, diz. Os próprios docentes do instituto tiveram que passar por um treinamento de quatro meses para poderem aplicar essa metodologia e se familiarizarem com a plataforma de compartilhamento de conteúdo.

A grande sacada desse modelo, segundo Claudio, é a nova organização das turmas. Os alunos passam a ser divididos em grupos espalhados pela sala e o professor circula entre as mesas acompanhando as atividades e tirando dúvidas. Eles não serão mais enfileirados, com carteiras voltadas para um único professor no quadro-negro. “Outra coisa interessante é que não vamos mais ter a divisão por séries. As turmas têm capacidade para até 90 alunos, vamos misturar todos os períodos para trabalharem conjuntamente em projetos e atividades.”

“Os professores formados por esse modelo vão estar preparados para enfrentar e resolver problemas, não apenas para serem transmissores de conteúdos e reprodutores desses problemas. A postura é proativa, o aluno sai preparado para lidar de forma inovadora com os problemas do mercado.” dis Valdir Carlos Silva, coordenador do curso de matemática do Singularidades. Ele acredita que, trabalhando por projetos e colaborativamente, os alunos irão desenvolver habilidades como comunicação e senso crítico e inovador.

“Esses novos modelos já são aplicados faz tempo nos Estados Unidos e vão tomar conta do mercado brasileiro nos próximos anos. No nosso caso, por sermos formadores de professores, precisamos começar a trabalhar nesse modelo para que os nossos alunos possam se apropriar desse conhecimento e assim consigam transformar as escolas onde irão atuar futuramente”, argumenta Claudio. A expectativa do Singularidades é de que os professores formados por meio do método impactem também outras salas de aula pelo país.

Adaptado via Porvir

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Infográfico explica a Sala de Aula Invertida

Na semana passada, falamos aqui no blog sobre a Sala de Aula Invertida de Salman Khan, a qual a ideia é usar os recursos educacionais recentemente popularizados pela tecnologia, como as videoaulas ou ambientes virtuais de determinados cursos, para que o aluno tenha contato com o conteúdo em casa.

Para aprofundar mais o assunto, mostramos hoje para você um infográfico que apresenta dados que comprovam a eficiência do método e que explica como funciona e o que é a Sala de Aula Invertida! Veja:

Sala de Aula Invertida

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A sala de aula invertida de Salman Khan

Em sua primeira visita ao Brasil –com direito a conversa com a presidenta Dilma Rousseff e com o ministro da Educação, o professor Salman Khan que virou celebridade, teve suas aulas assistidas quase 230 milhões de vezes nos últimos sete anos e, no ano passado, foi considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Ex-aluno do MIT e Harvard, gravou vídeos curtos, bem diretos ao ponto, com a explicação narrada ao fundo e números aparecendo em uma lousa para ajudar uma prima com dificuldades em matemática. Sem saber, suas aulas não estavam mais ajudando apenas Nadia, mas parentes, amigos e até os filhos do Bill Gates.

Quando chegaram ao YouTube, os vídeos se tornaram tão populares que o educador largou o mercado financeiro para se dedicar à Khan Academy, que hoje usa o mesmo formato para dar aulas de matemática, ciências, programação e humanidades. Com sua própria academia, Khan começava a liderar um movimento de reformulação de salas de aula em todo mundo, invertendo a sala de aula, ou o que em inglês é chamado de flip the classroom. Isso mesmo: ele tem colocado a classe de cabeça para baixo.

O conceito de sala de aula invertida tem encontrado adeptos não apenas na educação básica, mas também na educação superior. A ideia é usar os recursos educacionais recentemente popularizados pela tecnologia, como as videoaulas ou ambientes virtuais de determinados cursos, para que o aluno tenha contato com o conteúdo em casa. Assim, o tempo da sala de aula fica liberado para que professores e alunos avancem no aprendizado, seja fazendo exercícios, tirando dúvidas, promovendo debates.
Um infográfico ilustra a ideia de Salman Khan, veja:

Fonte: porvir.org

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Modelos de educação online: Cursos mesclados/híbridos e salas de aula ao avesso

Cursos mesclados ou híbridos combinam tempo de aula presencial e online de um modo estruturado. Embora haja vários tipos de misturas de oferecimento de conteúdo e de atividades interativas nesta abordagem, a extensão lógica é algo denominado de “sala de aula ao avesso” (flipped classroom). O modelo sala de aula ao avesso envolve cursos em que a explanação tradicional, ou disseminação de conteúdo, envolve menos carga horária presencial e mais tempo online longe da sala de aula. O tempo de aula presencial é usado para aspectos práticos e aplicáveis, e não para a introdução do conteúdo sendo estudado. O instrutor passa a dispor, então, de tempo para ajudar pessoalmente os seus alunos com problemas específicos. As salas de aula ao avesso já existem desde o ano 2000, mas recentemente ganharam popularidade tanto em instituições de ensino superior quanto de ensino médio.

A Khan Academy, com mais de 3.400 vídeos abrangendo diversos assuntos, vem sendo uma das principais promotoras da popularização do conceito de sala de aula ao avesso. Esse vídeos são gratuitos e estão à disposição de todos. O uso mais comum deles dentro das esferas educacionais é para a formação de boa parte da porção de explanações ou disseminação de conteúdo online de um curso, seja substituindo ou aumentando o material disponibilizado pelo instrutor do curso. Embora os vídeos da Khan Academy sejam atualmente voltados sobretudo para a matemática de ensino médio, novos investimentos estão levando à expansão do conteúdo para além da matemática e para o nível pós-secundário.

Há muitos outros exemplos de abordagens mescladas ou híbridas. O tema comum é tornar a carga horária presencial mais eficiente, empregando-a para que o professor responda a questionamentos e exercite habilidades interativas, e permitindo que o conteúdo seja oferecido via ferramentas online mais eficientes.

Acompanhe, no próximo post da série sobre modelos de educação online descreveremos sobre o modelo educacional MOOCs.

Fonte: artigo desenvolvido por Phil Hill

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